Os queijos e a fantástica demanda reprimida de lácteos na Ásia

Exportar o produto brasileiro deverá ser algo tão comum como é hoje a venda de soja para a China

Maior importador de lácteos e maior mercado consumidor de lácteos do mundo, a China tende a comprar sempre mais

Perdemos o bonde do café, mas não o dos queijos para os países asiáticos. E isso apesar do espantoso aumento da produção de leite e derivados na Índia, China, Paquistão e Indonésia – países cujas populações, somadas, totalizam 3,3 bilhões de habitantes em 2022, quantidade equivalente a 15,6 vezes a população brasileira. No ano 2000, a Ásia alcançou 29% e a União Europeia (UE) 37% da produção mundial de leite. Em 2019, a UE caiu para 26% e a Ásia passou a 42% – metade desse total produzido pela Índia. O Paquistão respondeu por 6% e a China 4%.

Entrar nos mercados da China, Índia, Indonésia e Paquistão exigirá dos produtores de queijos do Brasil concorrer principalmente com as grandes empresas da União Europeia, responsável por 44% do queijo importado pelos países da Ásia, e com as dos EUA e Nova Zelândia. Um desafio e tanto, principalmente pelo hábito das empresas brasileiras de serem voltadas para o mercado interno. Tomara que as premiações de queijos brasileiros na França em 2021 tenham animado o setor a encarar a concorrência internacional…

Vender queijos brasileiros na Ásia daqui a alguns anos deverá ser algo tão comum e em grande escala como é hoje a exportação de soja e carnes de boi e de frango para a China. Isso porque os aumentos significativos da renda per capita, no período 2000/2021, de US$ 2.917 (pela paridade do poder de compra – PPP) para US$ 19.338 na China, e de US$ 4.738 para US$ 12.904 na Indonésia, seguem produzindo alterações no padrão alimentar desses países, expressas no aumento de importações de produtos agropecuários, que passaram na China de US$ 8 bilhões em 1990, para US$ 189 bilhões em 2020, e na Indonésia alcançaram US$ 19,4 bilhões em 2020. No mesmo período, a renda per capita (PPP) no Brasil passou de US$ 9.050 para US$ 16.056; na Índia de US$ 2.093 para US$ 7.334; e no Paquistão de US$ 2.951 para US$ 5.878.

Todos esses números sinalizam as dimensões da demanda reprimida de lácteos que há na Ásia, resultante do baixo poder aquisitivo da grande maioria da sua população. A Indonésia, por exemplo, alvo de estudo da Secretaria de Inteligência e Relações Estratégicas da Embrapa, em 2018 (Série “diálogos estratégicos”), tinha consumo per capita de 14,6 litros de leite em 2012, muito distante da média brasileira (166 litros, em 2018). Apesar disso, a produção local dava conta de apenas 20% do consumo.

Decidida a aumentar significativamente a produção de leite, em poucos anos a Índia despontou como a maior do mundo, aumentando a produção em 51% no período 2012-2021. Para o período de 2022-2031, a estimativa da OCDE-FAO para a produção de leite na Índia é de mais 56% de aumento, recorde mundial disparado. Tanto leite na Índia (191 milhões de toneladas em 2019, e previstos 272 milhões, em 2031) e também no Paquistão (58 milhões de toneladas e 83 milhões), entretanto, ainda estão longe de atender suas populações: em 2030, a estimativa é que o consumo per capita indiano passe de modestos 23 quilos (2020) para 28 quilos, e o paquistanês de 37 quilos para 42 quilos. Na China, o consumo saltou de 6 quilos, em 1990, para 36 quilos em 2020.

Maior importador de lácteos e maior mercado consumidor de lácteos do mundo (US$ 66 bilhões em 2021), a China tende a comprar sempre mais, também porque já é o quarto maior destino turístico, com 66 milhões de turistas estrangeiros em 2019, e o poder aquisitivo da sua população continua aumentando, o que lhe permite consumir mais – e tudo isso acontece muito rápido, superando a capacidade de produção, que caminha para logo “bater no teto”, tais as limitações naturais (principalmente água e alimentos) que enfrenta, mais a redução de áreas de pastagens e os altos custos da atividade.

E por que queijo, e não leite em pó? Essencialmente porque leite em pó precisa de água para ser consumido, e o líquido precioso é bem escasso na China, Paquistão e Índia. E queijo permite agregação de valor via produção artesanal e indicação geográfica e diversidade de produtos, o que pode beneficiar grande quantidade de pequenos e médios produtores em todo o país.

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