O saldo da parceria estratégica Brasil-China é terrivelmente frustrante

Tornou-se praticamente impossível à economia brasileira chegar próxima novamente do tamanho do PIB chinês

Parceria estratégica pressupõe que cada integrante tenha a sua própria estratégia em relação à parceria. A China com certeza tem. E o Brasil com certeza não tem. Esse é o nó a ser desatado

A exposição da República Popular da China, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, comemorando os dez anos das relações diplomáticas com o Brasil, em agosto de 1984, e a visita do presidente Figueiredo à China (no final de maio), foram os dois grandes eventos da relação entre os dois países naquele ano, no qual o Brasil teve um PIB, pela paridade cambial, de US$ 209 bilhões, e a China de US$ 260 bilhões, de acordo com o Banco Mundial.

Em 1988, quando ocorreu a assinatura do primeiro acordo de cooperação científica e tecnológica entre o Brasil e a China, com foguetes chineses colocando em órbita satélites produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o PIB chinês chegou a US$ 312,4 bilhões e o brasileiro a US$ 330,4 bilhões. Tomando o CEBRS como ponto de partida, qual é o balanço das relações entre a China e o Brasil, desde 1988, muito além das compras e vendas (que teriam saltado de menos de 2 bilhões de dólares para 135 bilhões em 2021) e dos investimentos chineses? Temos realmente uma “parceria estratégica”, conforme definido em visita do presidente Fernando Henrique à China, em 1995? Na prática, o que significa uma “parceria estratégica”? E se a parceria Brasil-China é estratégica, ela é para os dois países, é mais para a China do que para o Brasil, ou o contrário?

Naquele ano de 1995, o PIB chinês havia mais do que dobrado em relação ao de 1988: US$ 734,5 bilhões. E ainda assim o do Brasil foi superior: US$ 769,3 bilhões. Não é incrível? Nos anos 1980/1990 o PIB do Brasil e o da China, pela paridade cambial, estavam praticamente empatados, com leve vantagem para o nosso lado. Aí houve a crise asiática, em 1997, o Brasil “quebrou” (a China não), e abriu-se um enorme valo entre a economia dos dois países, escancarado na diferença do PIB de 2000: Brasil tinha US$ 655 bilhões e China US$ 1,2 trilhão. Há dez anos, aumentou a distância, com US$ 2,4 trilhões do Brasil e US$ 8,5 trilhões da China. O Brasil tinha então a quinta maior população e o sexto maior PIB mundial e ficava entre o quarto e quinto maior mercado consumidor do mundo em automóveis e aviação doméstica. Seu PIB per capita, pela paridade do poder de compra, era de US$ 11.875, e o da China US$ 9.162, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Portanto, há apenas dez anos o Brasil estava bem próximo da segunda maior economia e maior população do mundo. Desde então, a China acelerou muito seu crescimento, alcançando US$ 14,7 trilhões em 2020, e o Brasil caiu para US$ 1,4 trilhão, dez vezes de diferença.

Ou seja, desde a declaração da “parceria estratégica”, saímos de uma situação de empate, para dez vezes de diferença entre as economias dos dois países. Portanto, a conclusão óbvia nesse caso é que a parceria estratégica não aconteceu. E o que é muito pior: tornou-se praticamente impossível à economia do Brasil chegar próxima novamente do tamanho da economia chinesa, entre outras coisas porque a diferença do PIB dos dois países se traduziu nesse período em pesados investimentos em infraestrutura de transportes na China, enquanto aqui continuamos levando nossos produtos primários em caminhões para os portos, graças à matriz de transporte mais anacrônica do mundo. Além disso, enquanto o Brasil conseguiu desindustrializar-se e perder competitividade internacional, a China aproxima-se dos 30% da manufatura mundial, em acelerada marcha de modernização para a Indústria 4.0 em todo o país até 2025.

Em bom português, o saldo da “parceria estratégica” Brasil-China é terrivelmente frustrante, e não apenas por causa da enorme distância de suas economias. Há também a cultura brasileira de solução de continuidade nas administrações públicas, que nos impede de avançar nas relações institucionais com as cidades e províncias chinesas. Daqui a pouco (agosto de 2024) serão 50 anos de relações diplomáticas entre os dois países gigantescos, líderes em seus continentes; a China então com a segunda maior população do mundo, e o Brasil com a sétima maior; e distâncias entre eles cada vez maiores: poder aquisitivo, desenvolvimento industrial, avanços científicos, tecnológicos e em inovação, esportes, educação e preservação ambiental. Quais os resultados dos vários e extensos acordos Brasil-China assinados nos últimos 18 anos? Foram aproveitados os recursos chineses, ofertados em 2015, para financiar o desenvolvimento no Brasil? Aumentou a oferta de cursos de mandarim, é verdade, mas ela continua residual em relação à quantidade (mais de 10 milhões) de estudantes universitários e dos institutos federais.

Fazendo um exercício de imaginação a respeito do que mais poderia ter ocorrido nos últimos 25 anos na relação Brasil-China, período no qual atuei nessa área, chega-se facilmente à conclusão que poderia ter sido dez vezes mais, não apenas em termos comerciais, mas em todas as áreas do conhecimento, das expressões culturais e dos esportes. Todas as 50 cidades com mais de 500 mil habitantes poderiam ter relações de irmanamento com cidades chinesas, assim como os 27 estados brasileiros ter irmanamento com províncias e regiões autônomas da China. E muito mais investimentos chineses, em infraestrutura de transportes, telecomunicações, fontes renováveis de energia, e em indústrias 4.0 – reduzindo assim a desindustrialização e aumentando a competitividade brasileira no mercado internacional.

Parceria estratégica pressupõe que cada integrante tenha a sua própria estratégia em relação à parceria. A China com certeza tem. E o Brasil com certeza não tem. Esse é o nó a ser desatado, para recuperarmos o enorme terreno perdido na relação com a país: definir estratégia nacional para a relação com o nosso maior parceiro comercial desde 2009. Sempre se disse que o Brasil não é para amadores. Imagine-se então a China.

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